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José Lucas

    

1. Quando e como ingressou na Doutrina Espírita?
     Ingressei no Espiritismo em 1982, tinha na altura 20 anos de idade. Tudo começou  porque tinha um amigo, colega da universidade, que era espírita. Eu gozava muito com ele, pois pensava que o Espiritismo tinha a ver com bruxarias, magias, com os médiuns comerciantes que exploram a dor alheia.
     Um dia, a sua mãe, também minha amiga e  uma pessoa notável, disse-me algo que mexeu comigo. Perguntou-me se eu conhecia o Espiritismo e eu expliquei que sim dando a minha explicação.
     Ela retorquiu que isso nada tinha a ver com o Espiritismo e depois perguntou: «Porque persegues algo que desconheces? Nem parece teu. É de elementar bom senso, quando se quer criticar algo, estudá-lo primeiro para fazê-lo com conhecimento de  causa». Fiquei desarmado.
     Fui  estudar «O Livro dos Espíritos» para  poder argumentar, mas o que aconteceu foi que fiquei apaixonado pela ideia espírita e passei a devorar a literatura espírita, como se  fosse uma agradável recordação, como se já tivesse tido conhecimento desta ideia algures no passado.

 2.  Porquê o espiritismo? Qual a principal mensagem  espírita?
     Porque é a doutrina mais completa, mais profunda e mais lógica que conheço até hoje. A principal mensagem é a da imortalidade da alma, da lei de  causa e efeito e da reencarnação, objectivando a felicidade se envolvidos no fermento do amor ao próximo,  desinteressadamente.

 3.  Como espírita, quem é José Lucas?
     Sou colaborador do Centro de Cultura Espírita, nas Caldas da Rainha, e membro da  ADEP - Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, bem como sócio individual da Federação Espírita Portuguesa.

 4. - Como está a difusão da doutrina espírita em Portugal?
     Estava muito parada até aparecer a ADEP. Com este novo projecto - apenas mais uma  associação espírita,  só que com  a particularidade de ser especializada em  comunicação - a divulgação aumentou bastante em Portugal. No entanto o objectivo é melhorar cada vez mais. Nota-se que não basta boa vontade, é preciso primeiro conhecer  bem a doutrina espírita, ter apetência para a divulgação e saber divulgar.

5.  Qual a importância da casa espírita?
     Os centros espíritas são uma espécie de portal da Doutrina  Espírita, ou deviam ser, de facto. É no centro espírita que muitas pessoas encontram feedback para as suas  inquirições mais íntimas na busca do conhecimento que equilibra, que satisfaz.
     O grande problema é que muitas vezes o centro espírita não retrata o que é a doutrina espírita mas sim a opinião dos seus dirigentes.
     Nesse sentido é importante esclarecer que  espiritismo é uma coisa e centros espíritas  podem ser outra. Daí a necessidade do auto estudo para podermos discernir se este  centro é verdadeiramente espírita ou não.
     O centro espírita deve actualizar-se do ponto de vista da  comunicação, deve ser uma escola de almas, onde se esclareça e esclarecendo se console, se auxilie. Deve ser um ninho de amor que contrarie a onda de violência que vai grassando.

6.  Ao longo destes anos como espírita, certamente teve alegrias e momentos menos felizes. Conte-nos alguns desses  momentos que o marcaram como espírita?
     As alegrias têm sido muitas, principalmente as constatações da imortalidade da alma, quer derivado dos estudos, meditações, quer das experiências mediúnicas pessoais ou conjuntas com outros amigos.
     Momentos menos felizes foram sempre uma mola propulsora para o optimismo, para o êxito, seguindo sempre em frente, sem perdas de tempo inúteis.
     São tantas as situações que sinceramente é difícil estar a particularizar uma delas.

7. Os livros da codificação espírita escritos por Allan Kardec, estão ultrapassados?
     Obviamente que não. Somente um juízo apressado pode desembocar nessa afirmação.
     Se estudarmos a codificação espírita - os livros de Allan Kardec - veremos que o  espírito da doutrina espírita mantém-se inalterável.
     O que acontece é que há pessoas que encaram a doutrina espírita com muita superficialidade e detectando pormenores que não  afectam a essência da doutrina, apressam-se em querer rever uma obra monumental quando deveriam isso sim rever-se como pessoas, aliás tarefa intransferível de todos nós.

8.  Qual o livro espírita (excluindo os livros de Allan Kardec)  que recomendava para todos os espíritas lerem?
     Depois dos livros de Kardec, recomendo os livros de Leon Denis, Ernesto Bozzano, Camille Flamarion, César Lombroso, e outros clássicos do Espiritismo.
     Depois aconselharia a obra de Francisco Cândido Xavier (colecção André Luiz e outros) bem como a de Divaldo Pereira Franco (os livros do projecto Manoel Philomeno de Miranda são explêndidos e de leitura obrigatória). Outros autores como Jorge Andrea dos Santos e Herculano Pires são fundamentais para completar este estudo.

     Outros autores igualmente bons poderiam ser referenciados mas corria o risco de esquecer alguns.

     Se estudarmos esta vasta bibliografia com afinco, estaremos sem dúvida bem escorados, doutrinariamente falando.

9.  Que mensagem gostaria de enviar ao Núcleo Espírita Rosa dos Ventos e a todos os seus colaboradores?
     Que continuem sempre sem olhar para trás, disseminando o bem, colocando em prática os ensinamentos morais que Jesus de Nazaré nos deixou como legado para a humanidade.

     Que divulguem o espiritismo na sua pureza sem o mesclar com personalismos desnecessários objectivando sempre uma sociedade mais fraterna, pacífica e feliz, que um dia seremos inevitavelmente.

10.  Por último, o que gostaria de dizer a todos aqueles que procuram pela primeira vez a Doutrina Espírita?
     Gostaria de poder transmitir a enorme alegria que possuo por ser espírita, a enorme paz de espírito que tal sentir me confere, mas isso é difícil pois é um sentimento pessoal. Assim sendo, sugeria que cada um pensasse pela sua cabeça, que não acreditem em tudo o que ouvirem em nome do espiritismo, que sejam críticos como o foi Allan Kardec.

     Deixaria uma sugestão: que estudem, leiam, troquem ideias, frequentem centros espíritas e se mesmo assim não se afinizarem com este ou aquele centro espírita, não larguem esta ideia que ilumina. Formem vocês mais um pequeno núcleo na vossa zona onde a única preocupação seja servir, ser útil.

     Destacaríamos sempre que uma coisa são as pessoas outra coisa são as ideias.

     A ideia espírita é notável, ponhamo-la em prática e seremos muito mais felizes.

     Gostaria acima de tudo de garantir que vale a pena tentarmos ser melhor, amar o próximo, melhorarmo-nos interiormente, mesmo que a custo e com poucos  êxitos, mesmo assim, prossigamos sempre sem desanimar, na certeza de que se assim procedermos iremos descobrir novos mundos de espiritualidade que nos trarão muita mais serenidade interior e certeza no provir

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     Entrevista realizada,  Setembro/2003,.