A ACÇÃO PEDAGÓGICA DO ESPIRITISMO
José António Luz  -  Dirigente do NERV

  Pedagogia e Espiritismo

Introdução

            A educação depende  do conhecimento menor ou maior que o educador possua em si mesmo. Porque conhecer-se a si mesmo é o primeiro passo do conhecimento do Homem.

            O mistério do ser, que aturde os educadores, chama-se personalidade. Cada ser humano é uma pessoa. E o é desde o seu nascimento, pois já nasce formada com sua complicada estrutura que vai apenas desenvolver-se no crescimento e na relação  social.

            É difícil para o educador dominar todas essas variações e orientá-las. Educar, como se pode verificar, é decifrar o enigma do ser em geral e de cada ser em particular. René Hubert, pedagogo francês contemporâneo, define educação como um acto de amor, pelo qual uma consciência formada procura elevar ao seu nível uma consciência em formação.

            A educação se apresenta, assim, como ciência, filosofia, arte e religião. É ciência quando investiga as leis da complexa estrutura humana. É filosofia quando, de posse dessas leis, procura interpretar o Homem. É arte quando o educador se debruça sobre o educando para tentar orientá-lo no desenvolvimento de seus poderes internos vitais e espirituais. É religião porque busca a salvação do ser humano no torvelinho de todas as ameaças, tentações e perigos do mundo. O  verdadeiro educador é o que pratica a religião verdadeira do amor ao próximo, naquilo que se pode chamar oculto do ser, no templo do seu próprio ser.

            Não procuramos tratar aqui de uma imagem mística sobre educação, mas sim, tentando vê-la, se possível compreendê-la e acima de tudo aplicá-la em todas as dimensões. O acto de educar é essencialmente religioso. Não é apenas um acto de amor individual do educador para com o educando, mas sim um acto de integração e salvação, procurando elevar o ser ao plano superior do espírito.

José Herculano Pires

 

 DESENVOLVIMENTO

A educação espírita não surge como uma elaboração artificial , como mais uma actividade educacional do nosso tempo. Sua importância está precisamente na sua legitimidade cultural e histórica. O Espiritismo firmou-se como doutrina, como uma concepção do mundo e do Homem devidamente estruturada em princípios filosóficos, em meados do século XIX.

            Sua elaboração foi precedida de uma fase de eclosão mundial de fenómenos paranormais que teve o seu clímax nos Estados Unidos da América, em 1848, com o caso das irmãs Fox. Só nove anos mais tarde, em 1857, a doutrina se definiria na França com o trabalho gigantesco de pesquisas psíquicas e elaboração doutrinária do Prof. Dénizard Rivail, que passaria a ser conhecido como Allan Kardec.

            O Espiritismo surgiu naturalmente, não foi inventado por ninguém; saindo a ser difundido por todo o mundo multiplicando-se o número de espíritos, em elevado número, no entanto, já era tempo de os centros culturais compreenderem essa realidade e colocarem de lado sua acção preconceituosa e ignorante do século passado, uma vez que a bibliografia espírita é hoje muito considerável.

            A educação espírita objectiva uma forma de educação integral e contínua, abrangendo todo o complexo da personalidade do educando assim como todas as faixas etárias em que ela se projecta.

            Sendo o Espiritismo uma doutrina que abrange, em seus três aspectos fundamentais – a ciência, a filosofia e a religião – todas as facetas do Homem, visando necessariamente a unificação do conhecimento, é evidente que a educação espírita só pode ser integral e contínua indo de um extremo a outro da existência humana.

            “E a quem melhor despertar senão às crianças.”

            O interesse pelos problemas da educação espírita culminou com as deliberações do Simpósio de Curitiba e do III Congresso de S. Paulo (1970), no tocante à elaboração de Pedagogia Espírita. Antes, porém, que esses assuntos educacionais chegassem à compreensão do problema as exigências pedagógicas de educação espírita já se faziam sentir. No Instituto Educacional Lins de Vasconcelos, de Curitiba, o Professor Ney Lobo, criava o primeiro Centro de Estudos Pedagógicos, elaborando novas técnicas educativas e formulando métodos que foram aprovados pela Secretaria de Educação do Estado.

            José Herculano Pires, após pesquisas no Instituto Espírita de Educação em S. Paulo, sobre renovação educacional, divulgou em 1955 no jornal “O Universitário Espírita” os primeiros trabalhos de Pedagogia Espírita.

            Sem o processo de educação, o “acto de amor” de Kercheusteiner (alemão) e de René Hubert (francês) não despertaremos para a nova orientação que devemos seguir em nova encarnação, na nova experiência existencial. Desta forma, negar às crianças o direito à educação espírita, através da evangelização seria sonegar-lhes o direito que lhes cabe na herança cultural. A inteligência infantil manifesta-se progressivamente passando da fase sensório-motora para a fase prática, desta para a representativa e desta para a abstracta. Mas está sempre actuante no desenvolvimento orgânico e psíquico.

            O Livro dos Espíritos nos informa na questão 385 que é dever dos pais a educação, missão sagrada da qual terão de prestar contas, e a quem compete essa tarefa. No entanto, no item 383, diz o seguinte “encarnando-se o espírito com o fim de se aperfeiçoar, é mais acessível durante esse tempo (a infância) às impressões que recebe e que podem ajudá-lo no seu adiantamento, para o qual devem contribuir os que são encarregados de educação”.

            Querer, pois, restringir a educação aos pais seria negar a existência de vida social, do processo de relações em que os homens se completam uns aos outros pelo auxílio mútuo.

            No item 685, Kardec tratando dos problemas sociais, lembra a necessidade do desenvolvimento da educação e acentua “não de educação intelectual, mas de educação moral; mas também não de educação moral pelos livros mas sim daquela que transmite hábitos, porque a educação é o conjunto de hábitos adquiridos”. Quando uma arte for conhecida, aplicada e praticada o homem chegará a um mundo de hábitos ordeiros e de previdência.

            Kardec assinala ainda, num trecho da Revista Espírita, como em França, já no seu tempo, a educação espírita no lar iniciava a produzir maravilhosos efeitos. Lembrando, que as crianças são espíritos reencarnados, adultos que se vestem com aparência ou roupagem de inocência, e que voltam à Terra, iniciando uma vida nova. Os espíritos que voltam em famílias espíritas desde cedo recebem  o auxílio de que necessitam. No entanto, os pais que a pretexto de respeitar a liberdade de escolha de quem ainda não pode escolher, ou de não forçar os filhos a tomarem o rumo certo na vida, deixam de iniciar os filhos no Espiritismo, estão faltando com os seus deveres.

            Ensinar às crianças o princípio da reencarnação, da lei de causa e efeito, da presença do anjo-guardião em suas vidas, da comunicabilidade dos espíritos é dever inadiável dos pais.

            O Espiritismo é educação e a missão do Espiritismo não é esclarecer alguns indivíduos, mas sim esclarecer multidões, alargar o conhecimento humano, colocar os homens diante da realidade integral da vida para regenerá-los. Nossa obrigação é procurar ajudá-los a compreender o problema na amplitude espírita em que ele se nos apresenta hoje. O Livro dos Espíritos nos informa que é pela educação que o mundo poderá regenerar-se. Assim vemos que a educação cristã substituiu a educação pagã e modificou a Terra. A educação espírita renovará a educação cristã e com ela o mundo.

            José Herculano Pires nos diz:

            “Mas o que é educação espírita? É o processo de orientação das novas gerações de acordo com a visão nova que o Espiritismo nos oferece de realidade. A realidade compreende o mundo e o Homem. Para este viver com proveito no mundo deve saber quem é e qual o seu destino. Para que o mundo não aturda o Homem é preciso que este saiba o que é o mundo. Nada disso pode ser conhecido sem o conhecimento dos princípios espíritas.”

            Estes princípios não são de coacção nem de imposição, mas sim de liberdade de consciência. O espiritismo não é uma forma de dominação de consciência, mas de libertação. “Sua grande tarefa é libertar o Homem das imposições do passado para que possa viver na Terra em plenitude.”

            José Herculano Pires nos alerta:  “A evangelização da infância não é nem pode ser feita em termos de abstracção, o que seria um ilogismo. Daí o apelo muito justo e muito pedagógico, pois inegavelmente didáctico, às histórias figuradas. Trata-se de uma técnica audiovisual de inegável eficiência, cujo objectivo não é transmissão dos princípios doutrinários, mas o despertar de crianças para a compreensão da realidade que ela traz no inconsciente. A função da historieta é a mesma da maiêutica de Sócrates e lembra o acordar da reminiscência platónica na mente do espírito encarnado.

            O que corresponde, ao objectivo real da educação que não é transmitir ensinamentos, mas predispor a mente a recebê-los através da instrução e assimilá-los na formação cultural.

            Daí relembrarmos a importância da família, porque a educação espírita começa no lar, em que se deve ensinar às crianças o princípio de reencarnação, da lei de causas e efeitos, da presença do anjo-guardião em vidas sucessivas, da comunicabilidade dos espíritos é um dever inadiável dos pais.

 

O Nascimento da Educação Cristã

            A educação cristã se realizou nos primeiros tempos directa e pessoalmente. Os educadores foram o próprio Jesus – o Mestre por excelência – os Apóstolos, os Evangelistas e, em geral os discípulos do Cristo. Era uma educação sem escolas como aconteceu com a budista, a judaica e, em geral com todas as religiões nos seus primeiros tempos.

            Foi por volta do ano de 179 d.C. que o filósofo grego Pantenus, convertido ao Cristianismo, fundou em Alexandria a primeira escola de catequizadores. Os Didáscalos sem preparo foram substituídos por professores de natureza enciclopédica. Clemente e Origenes fariam dessa escola, mais tarde, o mais importante centro de cultura religiosa da época. A iniciativa de Pantenus permitiu que a educação cristã desse um salto qualitativo, atingindo a institucionalização em plano superior.

 

A Pedagogia Cristã

            A pedagogia só aparece depois do desenvolvimento da educação, pois a pedagogia é o estudo, a pesquisa, a reflexão sobre o processo educacional. A educação cristã desenvolveu-se no meio da cultura clássica greco-romana, mas sob a influência pedagógica da educação judaica. As culturas grega, romana e judaica geraram historicamente a nova cultura cristã. Assim, a educação clássica e a educação judaica foram as fontes naturais das quais surgiu a educação cristã.

            Jesus reformou o judaísmo e dessa reforma saiu o Cristianismo. Os cristãos, a partir do impulso inicial do próprio Cristo (o Mestre por excelência) teriam de reformar a educação clássica e a educação judaica. Só assim, nesta perspectiva histórica, poderemos compreender a continuidade natural que existe no processo educacional. Cada nova educação não é a negação da anterior, mas o seu desenvolvimento.

 

O Nascimento da Educação Espírita

            Auguste Comte, formulou um esquema sobre a educação humana que se processa em três estados a saber: o estado teológico, representado pelas civilizações teocráticas e mitológicas da Antiguidade, o estado metafísico, simbolizado pela Idade Média e o estado positivo a que corresponde o Positivismo como filosofia científica, representado pela era das ciências.

            Ao tempo de Allan Kardec um leitor da Revista Espírita, propôs a este esquema, que Auguste Comte chamou de Lei dos Três Estados, o acréscimo do estado psicológico e Kardec viria a publicar a carta na Revista de Abril de 1869 e considerou acertada a sugestão do leitor.

            De facto, com o advento do Espiritismo em 1857 o estado positivo havia sido superada, a humanidade entrava em nova fase evolutiva caracterizada pelo predomínio das pesquisas psicológicas. Tal facto teve a sua confirmação no decorrer da segunda metade do século XIX e na primeira do século XX.

            As ciências psicológicas, no que diz respeito à psicologia no tocante a Espiritismo e às ciências psíquicas por ele geradas desenvolveram-se de tal forma nesse período, que acabaram predominando na cultura do século, ultrapassando mesmo todas as expectativas quanto às pesquisas elaboradas na segunda metade do século XX.

            Estamos hoje inegavelmente na era do espírito. Já passámos do estado psicológico, que era apenas o vestíbulo de uma fase decisiva da evolução humana. Estamos no estado espírita: analisem o salto qualificativo em apenas alguns anos, de 1930 até aos nossos dias, da psicologia animista, reduzida às investigações do comportamento humano, à parapsicologia, que rapidamente avançou na demonstração da realidade do espírito, a partir dos fenómenos de clarividência, telepatia, comunicação dos espíritos (fenómenos theta), da reencarnação (memória extra-cerebral).

            O Cristianismo havia conseguido a conversão do mundo. O Espiritismo está a conseguir a conversão da ciência. A visão dos novos cristãos modificou as relações humanas, mesmo nas áreas não dominadas pelo Cristianismo, e criou uma nova cultura. A visão novíssima do Espiritismo deu novas dimensões à visão cristã e está a criar uma nova civilização.

 

O Contributo de Allan Kardec

            Em 1854 o Professor Denizard Rivail começou a investigar os fenómenos psíquicos, que nove antes haviam abalado os Estados Unidos. Discípulo de Pestalozzi, o grande pedagogo da época e ele também se interessou por todos os fenómenos que pudessem dar-lhe um conhecimento mais profundo da natureza humana.

            Em 1857 lançava em Paris o Livro dos Espíritos, como primeiro fruto de suas pesquisas. Havia descoberto o espírito, determinado sua forma, a sua estrutura, as leis naturais (e não sobrenaturais) que regem suas relações com a matéria. Afirmando que  o homem é espiritual, que sobrevive à morte, que possui um corpo energético, e se submete ao processo biológico da reencarnação para evoluir como ser. A obra pedagógica e didáctica de Allan Kardec é enorme e foi adoptada pela Universidade de França. O Espiritismo, diziam-lhe os espíritos, tem por missão modificar o mundo inteiro. Afirmava que o ensino espírita, como qualquer outro, devia ser sistematizado, com cursos regulares de educação espírita, e acrescenta “o Espiritismo é uma ciência da qual resulta naturalmente uma filosofia e uma religião”.

 

A Pedagogia de Jesus

            O que revela a existência de um pensamento pedagógico na orientação educacional dada por um mestre não são os seus títulos, são as coordenadas e a estrutura do seu ensino. Toda a pedagogia se funda numa filosofia; esta é a própria essência do Cristianismo, fornece a Jesus as directrizes do seu ensino – Jesus é o modelo perfeito do mestre cristão.

            Clemente de Alexandria chama-o de pedagogo da humanidade: o Mestre Jesus, com sua acção pedagógica, nos leva a comparar o Deus do Velho Testamento com o Deus do Novo Testamento, nos mostrando a diferença entre o mundo judeu e o mundo cristão. O Deus de Jesus é o pai de todas as criaturas sem distinção de raças ou posições sociais.

            Demonstra-nos, pela nova visão, que os pobres, os doentes, os sofredores, os escravos deixam de ser os condenados dos deuses e passam à categoria de bem-aventurados. A virtude não está na bravura e no heroísmo sangrento, mas na paciência e no perdão, o céu não será conquistado pela violência, mas devemos contribuir para implantar o reino de Deus na matéria. A vaidade e a ambição devem dar lugar à humildade e à renúncia.

            Como podemos verificar, a sua pedagogia era a da esperança e Francisco Arroyo na sua História Geral da Pedagogia nos diz: “Jesus possui todas as qualidades de educador perfeito. Os recursos pedagógicos de que se serve conduzem o educando, com feliz e profunda alegria, à verdade essencial dos seus ensinos. Os ensinos de Jesus são sempre adaptados aos ouvintes. Pronuncia palavras compreensíveis para todos recorrendo a imagens e parábolas. A pedagogia do Mestre é gradual: semeia e espera que as sementes germinem e frutifiquem. «Tenho muito mais para vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora.» Seus ensinos têm um toque de autoridade: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, todo o poder me foi confiado”.”

            Depois de um período obscuro na Idade Média, em que a categoria do natural era fundamento do ensino de Jesus desaparecera. No entanto, nos alvores do século XIX, a pedagogia filantrópica, que é o ensino a serviço da caridade e sua didáctica é o amor, cujo herói e mártir é Pestalozzi, faz ressurgir a pedagogia de Jesus, que as transmite a Kardec. Por isso, verificamos que a didáctica de Kardec seguirá a mesma linha naturalista de Jesus, com linguagem simples e os métodos naturais e de intuição.

 

 Conclusão

     A necessidade de pedagogia no Espiritismo é determinada por duas ordens causais:

   1 -- Histórica: que nos diz que a pedagogia é um processo histórico de reflexão sobre a educação para a elaboração dos sistemas educacionais cada vez mais consentâneos com as exigências da evolução humana – a pedagogia é assim a educação pensada, compreendida e aplicada segundo critérios racionais.

    2. -- Consciencial: se no plano fenoménico a educação é uma exigência vital das estruturas sociais, no plano espiritual, é uma exigência da consciência. René Hubert a define como: “A educação é uma acção mas uma acção exercida por um espírito sobre outro.” E acrescenta: “É um apelo que o Espírito já situado nas esferas superiores da existência dirige a outro que mais ou menos confusamente aspira chegar até lá.”

     Verificamos que o Espiritismo é a doutrina da educação por excelência, que não se contenta com a formação do cidadão, do Homem gentil, do erudito: ele nos abre as perspectivas do infinito e pretende, como queria Pestalozzi, fazer de uma criatura um espírito universal, preparando-o para a Eternidade. Só a acção pedagógica no Espiritismo pode alçar esses fins de educação, fundar numa filosofia geral, que represente de forma completa a realidade do mundo, da vida e do ser.

     Por todas essas razões que acabámos de enumerar e de muitas outras que, por falta de espaço, não pudemos exprimir, que todos nós nos possamos consciencializar de que a educação espírita tem necessariamente de ser orientada por uma pedagogia espírita.

 

Bibliografia

A Pedagogia Espírita

Autor: José Herculano Pires

Editora: J. Herculano Pires

Ano de Edição: Setembro 1990

 

Este trabalho foi apresentado pelo  NÚCLEO ESPÍRITA ROSA DOS VENTOS, no IV CONGRESSO NACIONAL DE ESPIRITISMO, com a temática ESPIRITISMO: NOVO DESAFIO PARA A ÉTICA DO PENSAMENTO HUMANO,

FORMA DE APRESENTAÇÃO: PROJECÇÃO DE ACETATOS